Antes de começar a sua leitura, por favor, assista este vídeo (vale muito a pena!):

TEDxSP 2009 – Augusto de Franco from TEDxSP on Vimeo.

Para quem não sabe, em meados de 2006 ajudei a organizar um movimento apartidário contra a corrupção. Na época o movimento chamava-se “Reforma Brasil”. Sabe aquela coisa de adolescente que deseja salvar o mundo? Pois é… Em pleno Domingo, antes das eleições, lá estava eu, em cima de um carro de som na Av. Paulista, cercada de quase 15.000 pessoas (vídeo).

Óbvio que não conseguimos mudar muita coisa no cenário político nacional, porém, para cada uma das pessoas que participaram da organização deste movimento uma certa bagagem sobre o poder das redes sociais foi herdada.

Tanto que aquele grupo, do qual fiz parte, conseguiu reunir pela primeira vez, mais de 20 cidades, para um grande protesto simultâneo contra a corrupção, que até o Fantástico resolveu divulgar um bocado: era o Dia da Dignidade Nacional.

Quando lembro disso fico ao mesmo tempo brava, porque hoje detesto passeatas e acho uma baita falta de respeito com o trânsito e a cidade, mas por outro lado fico grata, afinal foi a partir desta experiência que comecei a estudar o poder das redes sociais.

Ou vocês acham que um grupo de 7 pessoas seria capaz de mobilizar tanta gente, sem grana e sem rabo preso, se não fosse através da dinâmica das redes sociais com as ferramentas da internet?

Então, depois desta experiência, saio lendo tudo o que vejo pela frente sobre o assunto e descubro este cara aí do vídeo: Augusto de Franco. Um mestre! Ainda quero tê-lo no palco do @bpecommerce! E ao ler um dos primeiros artigos sobre a organização da sociedade de forma distribuída, me apaixonei! Minha cabeça deu muito nó até entender como a coisa funciona e até hoje tenho uma tremenda dificuldade para viver isso na prática.

Mas não faz mal… sou brasileira e não desisto nunca! rs Tanto não desisto que o @bpecommerce nasceu desta fonte. Cansada de fazer passeata e dar murro em ponta de faca, desisti de salvar o mundo todo (que é grande demais e nem sempre quer ser salvo) para criar um ambiente organizado de forma distribuída, para reunir pessoas, aprender, ensinar e quem sabe provocar quem deseja realmente promover mudanças em seu dia-a-dia.

Mas por que raios decidi falar disso hoje? Porque nas últimas semanas, em várias rodas de amigos, ouço falar sobre a presença das empresas nas redes sociais e isso me deixa de cabelo em pé. E, como não quero ser a dona da razão, quero convidá-los para uma boa discussão. Vou colocar os meus pontos, que não julgo certos nem errados, apenas um apanhado de coisas que pude reunir durante esses anos e gostaria de saber a opinião de vocês:

As redes sociais existem desde que o mundo é mundo. A natureza sempre foi organizada de forma “distribuída”. Quem inventou a hierarquia e a centralização foi o homem, de certa forma agindo contra sua própria natureza. Os sistemas hierárquicos são baseados em intermediários. A internet possibilitou a conexão das pessoas sem a necessidade de intermediários, a hierarquia, pelo menos na rede, veio abaixo!

Pelo menos 99% das organizações que conhecemos ainda funcionam de forma centralizada. E estas mesmas organizações desejam se relacionar com o público através da internet. Só há um problema: na internet as coisas acontecem de uma forma muito mais rápida e potente do que nas organizações. Essa potência e rapidez das informações são fruto de como as redes funcionam: de forma distribuída. E é óbvio que, enquanto as empresas não se atualizarem, continuarão a sentir receio ao adotar a internet como um canal com seu público.

Isso quer dizer que ainda vamos acompanhar muitos casos (#fail) como o da Domino’s Pizza, Pulma, Locaweb etc…

Percebam que as mesmas pessoas que trabalham de forma centralizada nas empresas, agem de forma distribuída na internet! Quantos profissionais maravilhosos só tiveram o reconhecimento que mereciam após postar suas idéias num blog? Tudo porque dentro das empresas em que trabalhavam alguns intermediários tinham eles como ameaças e boicotavam suas idéias. Tudo porque, mesmo sabendo muito sobre um determinado assunto, não tinham grana para investir em diplomas, ao ponto de serem chamados por especialistas para entrevistas em jornais e revistas.

Isso me leva a pensar que não basta ensinar uma empresa a usar o Twitter, Facebook, Orkut e outras ferramentas. Porque afinal, isso são só ferramentas! Doce engano, quem acha que criar um perfil, alimentar com conteúdo relevante e criar relacionamento é o suficiente. Não é. A internet veio para revolucionar o nosso comportamento, a forma como lidamos com as coisas e com as pessoas. E esta revolução, no caso das empresas, deve ser de dentro para fora.

Eu sempre recomendo que as empresas criem redes internas para que a equipe possa se acostumar com esta nova realidade e aprenda a promover seus produtos e serviços com mais rapidez e excelência para o público. Vocês podem me chamar de louca, mas penso que não deveria existir um departamento de inovação, tampouco um departamento ou cargos focados em “redes sociais”. Acredito que deve ser alimentada a cultura da inovação em todos os membros da equipe, assim como todos devem saber utilizar as ferramentas que a web disponibiliza para promover o seu trabalho e sua organização. Querem exemplo melhor do que a Zappos?

Ah, mas isso acontece da noite para o dia? Óbvio que não! Eu demorei 6 anos para trabalhar numa empresa em que eu pudesse falar disso sem ser apedrejada. E melhor: que deseja aos poucos se adaptar a esta nova realidade (que já não é tão nova assim).

Por isso continuo acreditando que meus colegas de profissão podem pensar um pouco fora da caixa, porque há no mercado empreendedores dispostos a investir nisso, desde que nossos profissionais tenham os pés no chão.

Sim, porque esta bolha uma hora vai estourar e este lance de só vender post pago e cases baseados em quantidade de pageviews vai deixar muita gente pobre. O mercado está amadurecendo e formar cultura em rede será tão importante quanto “aparecer”.

Enfim… poucas pessoas ainda sabem o caminho das pedras e além das pedras mudarem de lugar todos os dias, é um caminho sem volta. Como diz meu amigo @busarello: …”todos os dias tenho problemas inéditos para resolver” e não vejo outra forma de resolvê-los se não nos ajudarmos, em rede, é claro!

Bjoka de UpaLupa

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Atualização:

Vale a pena exibir uma conversa que tive com meu amigo Marcelo Vitorino, na íntegra:

Marcelo diz (21:59):
faltou a conlcusão da proposta do texto
pq é a bolha das mídias sociais?
Lígia Dutra diz (21:59):
pq as pessoas estão trabalhando de forma superficial
Marcelo diz (21:59):
e?
qual o problema?
Lígia Dutra diz (22:00):
Muita gente está gastando dinheiro a toa
Marcelo diz (22:00):
o que acontecerá para estourar? e depois?
Lígia Dutra diz (22:01):
Vai estourar assim que o mercado amadurecer e perceber que hoje há muita especulação
Marcelo diz (22:01):
como ele perceberá isso?
vc apresentou o propblema
Lígia Dutra diz (22:02):
vai perceber porque vai ficar cada vez mais difícil lidar com tantas crises
Marcelo diz (22:02):
basicamente
Marcelo diz (22:03):
o que vai acontecer é que as empresas investirão nas mídias sociais como se fosse a salvação
o problema é que poucos dentre muitos são profissionais, o que acaba produzindo resultados insatisfatórios
Marcelo diz (22:04):
levando sempre em consideração que investimento em mídias sociais continua saindo da verba de marketing
*o que não é brincadeira, investiu x, retorna y em tempo z
Marcelo diz (22:05):
infelizmente não há um guia de onde investir em mídias sociais, como em outros formatos de canais de comunicação, assim como a tv e o rádio
neles você já tem uma idéia do retorno que dará
Marcelo diz (22:06):
fora o tipo de veículo, uma diferença está sendo crucial nessa onda, em mídias sociais, existem infinitamente mais opções do que nas mídias tradicionais, dificultando o investimento correto
quando as empresas tomarem os primeiros tombos e os resultados não chegarem, aí a bolha estourará
Marcelo diz (22:07):
será necessário muito organização para recuperar a credibilidade desse novo formato
é isso
Lígia Dutra diz (22:08):
e essa organização que vc fala…. faz parte disso criar uma cultura interna para que o investimento neste tipo de mídia seja mais orgânico?
Marcelo diz (22:08):
acredito que os principais players das mídias sociais irão se organizar
Marcelo diz (22:09):
tipo, os 100 melhores profissionais
Lígia Dutra diz (22:09):
e qual o principal papel deles?
Marcelo diz (22:09):
mostrar ao mercado o que é viável, e também aos produtores de conteúdo o que se espera deles
Lígia Dutra diz (22:10):
mas pq uma empresa inteligente pagaria para um terceiro criar conteúdo, se ela possui um exército de talentos internos que podem fazer isso por ela?
Marcelo diz (22:11):
explico
simplesmente porque as empresas tem como negócio principal a produção e venda de seus produtos/serviços
se ficar com elas a tarefa é bem provável que algo se perca no caminho
Lígia Dutra diz (22:12):
e como vc explica o sucesso da Zappos nesta tarefa?
Marcelo diz (22:12):
quantas zappos há?
seria como basear o futebol no Pelé
Marcelo diz (22:13):
a zappos é uma empresa virtual
leve o caso para a Adidas
ou para a Coca-cola
o marketing é contratado
Lígia Dutra diz (22:13):
há o exmplo da IBM
Lígia Dutra diz (22:14):
400.000 funcionários no mundo todo que possuem acesso livre as redes no trabalho e promovem a empresa o tempo todo
Marcelo diz (22:14):
ok… volto a dizer… projete isso para a realidade de 90% das empresas
pense em uma empresa com 100 funcionários
adiantaria os 100 fazerem algo?
ou será que o esforço se perderia em meio ao caos?
Lígia Dutra diz (22:15):
só testando… se ficarmos no “se” não dá para sair do lugar…
Lígia Dutra diz (22:16):
mas gostei, esta é a intenção do texto: fazer as pessoas pensarem nisso… discutirem sobre o assunto e não ficar apenas copiando modelos
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